Friday, October 28, 2005

O Lutador

Lutar com as palavras
é a luta mais vã
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mais lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior ternura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
outra sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.

Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca,
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se consuma
e o inútil duelo
jamais se resolve.
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve.
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.

Carlos Drummond de Andrade

Tuesday, October 18, 2005

«Alice»

A dor, a dor sempre presente. A dor do vazio. Um vazio angustiante e obsessivo. Uma dor muda e irremediável.

Um vazio que suga a vida, a qual se transforma - toda ela - em dor total, absoluta e omnipresente.

Assim é «Alice»!

«Marcas de Sangue»

Tão incrivelmente plausível, tão profundamente real, tão intensamente cruel, tão degradante...

Faz-nos pensar na sorte que tivemos na vida e nas vidas miseráveis, doentias, auto-destrutivas que - tantas vezes - se desenrolam ao nosso lado, escondidas atrás de paredes e portas envergonhadas. Faz-nos pensar como a desgraça é reprodutiva e contagiosa, na sua ânsia de afundar mais uns quantos no seu poço de dor, angústia e desespero.

Vivido, sentido, dolorido. E brilhantemente interpretado. Em cena, até há bem pouco tempo, na Comuna.

Ainda as eleições autárquicas

Como se previa, sairam vitoriosos o populismo, o caciquismo e o caudilhismo. Mistura explosiva (como, aliás, ficou bem patente na própria noite eleitoral)!

O que diz muito, não quanto ao sistema democrático em si (que não está, nem esteve em causa), mas quanto às escolhas dos nossos eleitores e aos critérios que utilizam na selecção dos respectivos eleitos locais. Faltam-nos ainda, infelizmente, cultura democrática, maturidade republicana, intransigência ética, apreço pela verticalidade e exigência de rigor...

Salvou-se Amarante, a cujos eleitores agradeço - sinceramente - por nos terem demonstrado que nem todos se deixam comer por parvos. Vivam os Amarantinos!