Haverá algum (real) "mérito" no acto de provocar "ruído" na comunicação social e na vida política em geral...? Isso, por norma, é o que fazem individualidades como Valentim Loureiro (já nem vou referir o nome "Santana Lopes" para não bater mais no ceguinho...).
Transcrições do livro de Rui Mateus que contam algumas partes da fabricação do mito Soares.
“No tempo em que Deus foi laico, republicano e socialista” ( 1985-1986 )
Em Março de 1984, quando da visita oficial aos EUA, visitámos, no dia 17, dia livre em Nova Iorque, o velho amigo e antigo secretário-geral da IS, Hans Janitschek, na sua residência frente ao Central Park. Aí falar-se-ia abundantemente da próxima candidatura a Belém. Um dos handicaps, evidenciado pelo total desinteresse que a visita do primeiro-ministro despertara na comunicação social norte-americana, prendia-se com o feedback desse aparente desinteresse que a televisão rapidamente transmitia aos eleitores portugueses. Era necessário algo na área da cultura que o projectasse de fora para dentro como o “maior português do século”. Janitschek sugeriu um livro ao que Soares responderia ser do seu agrado, tendo mesmo já insistido junto da sua velha amiga Marvin Howe nesse sentido. Só que nenhuma editora anglo-saxónica mostrara qualquer interesse. … Seria um livro “para português ver” sem qualquer mercado nos países de língua inglesa. Mário Soares concordaria então, desde que não fosse muito caro e que Marvin Howe colaborasse na sua feitura. Segundo ele, a Fundação de Relações Internacionais se encarregaria dos pormenores a partir daí, o que então queria dizer que eu teria de me encarregar dessa nova actividade editorial. A sua filha Isabel se encarregaria das fotos. Assim nasceria o livro – Mário Soares, Portrait of a hero, da autoria de Hans Janitschek, que custaria a módica quantia de cinquenta mil dólares, ou, naquele tempo, quase oito mil contos, dos quais mil e seiscentos para o autor.
No dia 13 de Dezembro era lançado o livro, numa recepção de mais de mil pessoas no hotel Ritz em Lisboa com a presença do autor, do editor e do então já primeiro-ministro britânico James Callaghan. … Este livro que Soares quisera, fora “fabricado” com dois objectivos: o primeiro de dar a mensagem aos portugueses mais desprevenidos de que o candidato Mário Soares era considerado um herói além fronteiras, ao ponto das mais prestigiadas editoras mundiais se “baterem” para publicar as suas memórias e, segundo, permitir a alguns PSD’s e CDS’s, como foi o caso de Francisco Pinto Balsemão, poderem apoiar discretamente o candidato Mário Soares, contra as orientações de Cavaco Silva.
Mas, por razões que nunca apuraria, Marvin Howe nunca chegaria a colaborar com o autor do livro. Quase um ano depois, Mário Soares, já então Presidente da República, dir-me-ia que falara com Marvin Howe e que esta lhe dissera que o livro não possuía qualidade literária.
Depois de o encomendar, como qualquer gadget eleitoral, a um autor que conhecia desde 1969 e sabia não ser exactamente reconhecido no meio literário de Nova Iorque, tentava culpar-me pelo facto de o livro não ser exactamente considerado para o Prémio Pullitzer. Recordei-me então de como ele, dez anos antes, “abandonara” o Partido e depois tentara culpar Manuel Tito de Morais pela quase vitória de Manuel Serra.
Mas, na realidade, como eu o conhecia bem melhor do que os portugueses o conhecem, sabia perfeitamente que a sua tardia “reclamação” não passava de uma birra resultante da frustração de ter encomendado um livro que fora bom para o lançamento da campanha mas que, convenhamos, não era exactamente um grande “crédito” nos meios políticos e literários internacionais para um presidente da República. Mas, infelizmente, ainda não apareceu nenhum autor de renome da língua de Shakespeare a escrever outro!
Nota facciosa: A fabricação do mito parece ter frutificado junto de muita gente. Ao ponto de alguns ex-opositores, como Medeiros Ferreira, estarem agora a fazer marcha-atrás. No próximo capítulo desta novela - mais curiosos e divertidos factos relatados pelo autor (chegado amigo de Soares).
3 Comments:
"total silêncio"?!?
Há quem oiça falar das presidenciais há meses. Será que aí também é mérito do Tio Flops?
Haverá algum (real) "mérito" no acto de provocar "ruído" na comunicação social e na vida política em geral...?
Isso, por norma, é o que fazem individualidades como Valentim Loureiro (já nem vou referir o nome "Santana Lopes" para não bater mais no ceguinho...).
Vai-se descobrindo o mito Soares
Transcrições do livro de Rui Mateus que contam algumas partes da fabricação do mito Soares.
“No tempo em que Deus foi laico, republicano e socialista”
( 1985-1986 )
Em Março de 1984, quando da visita oficial aos EUA, visitámos, no dia 17, dia livre em Nova Iorque, o velho amigo e antigo secretário-geral da IS, Hans Janitschek, na sua residência frente ao Central Park.
Aí falar-se-ia abundantemente da próxima candidatura a Belém. Um dos handicaps, evidenciado pelo total desinteresse que a visita do primeiro-ministro despertara na comunicação social norte-americana, prendia-se com o feedback desse aparente desinteresse que a televisão rapidamente transmitia aos eleitores portugueses.
Era necessário algo na área da cultura que o projectasse de fora para dentro como o “maior português do século”.
Janitschek sugeriu um livro ao que Soares responderia ser do seu agrado, tendo mesmo já insistido junto da sua velha amiga Marvin Howe nesse sentido.
Só que nenhuma editora anglo-saxónica mostrara qualquer interesse.
…
Seria um livro “para português ver” sem qualquer mercado nos países de língua inglesa.
Mário Soares concordaria então, desde que não fosse muito caro e que Marvin Howe colaborasse na sua feitura.
Segundo ele, a Fundação de Relações Internacionais se encarregaria dos pormenores a partir daí, o que então queria dizer que eu teria de me encarregar dessa nova actividade editorial. A sua filha Isabel se encarregaria das fotos.
Assim nasceria o livro – Mário Soares, Portrait of a hero, da autoria de Hans Janitschek, que custaria a módica quantia de cinquenta mil dólares, ou, naquele tempo, quase oito mil contos, dos quais mil e seiscentos para o autor.
No dia 13 de Dezembro era lançado o livro, numa recepção de mais de mil pessoas no hotel Ritz em Lisboa com a presença do autor, do editor e do então já primeiro-ministro britânico James Callaghan.
…
Este livro que Soares quisera, fora “fabricado” com dois objectivos:
o primeiro de dar a mensagem aos portugueses mais desprevenidos de que o candidato Mário Soares era considerado um herói além fronteiras, ao ponto das mais prestigiadas editoras mundiais se “baterem” para publicar as suas memórias e, segundo,
permitir a alguns PSD’s e CDS’s, como foi o caso de Francisco Pinto Balsemão, poderem apoiar discretamente o candidato Mário Soares, contra as orientações de Cavaco Silva.
Mas, por razões que nunca apuraria, Marvin Howe nunca chegaria a colaborar com o autor do livro.
Quase um ano depois, Mário Soares, já então Presidente da República, dir-me-ia que falara com Marvin Howe e que esta lhe dissera que o livro não possuía qualidade literária.
Depois de o encomendar, como qualquer gadget eleitoral, a um autor que conhecia desde 1969 e sabia não ser exactamente reconhecido no meio literário de Nova Iorque, tentava culpar-me pelo facto de o livro não ser exactamente considerado para o Prémio Pullitzer.
Recordei-me então de como ele, dez anos antes, “abandonara” o Partido e depois tentara culpar Manuel Tito de Morais pela quase vitória de Manuel Serra.
Mas, na realidade, como eu o conhecia bem melhor do que os portugueses o conhecem, sabia perfeitamente que a sua tardia “reclamação” não passava de uma birra resultante da frustração de ter encomendado um livro que fora bom para o lançamento da campanha mas que, convenhamos, não era exactamente um grande “crédito” nos meios políticos e literários internacionais para um presidente da República.
Mas, infelizmente, ainda não apareceu nenhum autor de renome da língua de Shakespeare a escrever outro!
Nota facciosa:
A fabricação do mito parece ter frutificado junto de muita gente. Ao ponto de alguns ex-opositores, como Medeiros Ferreira, estarem agora a fazer marcha-atrás.
No próximo capítulo desta novela - mais curiosos e divertidos factos relatados pelo autor (chegado amigo de Soares).
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